segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Besos, viejo Bendati!

Foto: Adriana Franciosi - ZH *


Não sei como melhor descrever meu pai.
Aqueles olhos azuis eram envoltos em tango. Ele respirava tango, tinha zilhares de cd's, discos de vinil, fitas K7 e noventa e nove por cento eram tangos. O um por cento restante certamente eram presente de alguém, que diga-se de passagem, se equivocou apesar de bem intencionado.
Carlos Gardel, Astor Piazzola, coletâneas tangueras preenchiam o universo deste argentino, naturalizado brasileiro, com mulher, filhas, neta e cachorros brasileiros, com muito orgulho, como ele mesmo dizia.
Anibal Carlos Bendati. Nascido em 11 de setembro, data lembrada com grande alegria até as torres gêmeas puxarem o foco. O Bendati puteou um pouco o ocorrido, com aquele palavreado castelhano de "baixo calão" que lhe era tão peculiar.
E é assim que lembro dele, e quero seguir lembrando sempre. Essa doçura e explosão constantes. Sem fazer da vida um mar de rosas. Porque também brigávamos, discutíamos, divergíamos, graças a deus. Mas foi ele, assim como minha mãe, que sempre apoiou a mim e minha irmã, nas loucuras e sanidades que resolvemos enfrentar.
Ninguém melhor do que o "véio Benda" repetia melhor o jargão que tão bem cabe aos artistas que ganham pouco e trabalham muito. Ele respondia à pergunta a quem perguntasse como ele estava, que estava "jodido pero contento" (deixem de ser preguiçosos, procurem um dicionário).
Pois bem, esse cara, jornalista, desenhista, professor, fez história nas artes gráficas no Rio Grande do Sul e no Brasil. Fez teatro também, na argentina, e talvez isto explique muita coisa. Não sei porque não foi cantor, pois tinha um vozeirão, visto que quando esbravejava com o computador, a vizinhança toda ficava sabendo.
E era doce. Uma manteiga derretida. Um porteño apaixonado e saudosista. Ele dizia sempre que no dia que chegou ao Brasil, em 57, no porto de Santos, se emocionou pois escutou, não lembro se em uma rádio ou o que, o tango "Mi Buenos Aires Querida", na voz de Gardel. Não sei se a cena foi assim mesmo, ou se o temperamento tanguero do pai imaginou a cena ideal, mas gosto de pensar que tudo aconteceu assim mesmo, com o charme dos anos 50 e o então jovem Bendati, com sua mala e seu terninho desembarcou por aqui para iniciar a nossa história, com toda poesia que aquela imagem dos filmes em preto e branco sabem imprimir.
Uma história rica e que fomos pintando em cores. De muito amor. De uma família amorosa e liberal. Que viveu os horrores da ditadura, e tantos outros acontecimentos bons e ruins com uma lei fundamental: amor. E respeito. Como já disse, com muito bate boca e divergência. Porque senão seria uma chatisse mesmo. Com uma inspiraçãozinha italiana, apesar do sobrenome Bendati com um "t" só remeter a italiano fajuto, o pai era neto de italianos sim.
E foi neste sábado, dia 15 de agosto de 2009 que meu pai, el gran Anibal Carlos Bendati partiu para outro plano.
Com um suspiro, como disse minha irmã.
E com um suspiro ficamos por aqui, rindo das ranzinzisses que se suavizam com a saudade, e com lágrimas contemplativas na lembrança dos mais belos olhos azuis que eu tive o prazer de conviver.

Fica em paz meu pai. A benção e todo o nosso carinho pra ti. Te amamos.
Tuas filhas, Lúcia e Mercedes
*Esta foto foi tirada para uma reportagem de dois ou três anos atrás e publicada no jornal Zero Hora. Obrigada à fotografa por ter captado com tanta poesia o meu pai que ela nem conhecia...

23 comentários:

Rodrigo Monteiro disse...

chorei.

teu texto tah soda.

petit disse...

chulé
chorei
muito

Marcelo Adams disse...

Linda homenagem, Lucinha.

Platero disse...

ai, que lindo lucinha...
tb to chorando...

Carmem Salazar disse...

oi, Lucinha

lindo texto sobre o teu pai... linda foto, tbém.

um beijo!

Anônimo disse...

Lucinha, gosto de acreditar que as pessoas que amamos e partiram nos acompanham sempre. Desejo que seja assim com vc e sua irmã. Que o Sr o Sr. Anibal esteja sempre com vcs.Ane Marie

Leonel Radde disse...

Simplesmente lindo!

Anônimo disse...

bela e merecida homenagem ao nosso parceiro de traços..
santiago

Julio Conte disse...

Querida Lucia, apesar de não privar contigo muitos momentos, o teu relato me emocionou muito. E através destas palavras oferceço meu pesar e solidariedade. Afinal, a aventura da vida de teu pai é uma legado de experiência para sempre.
Julio Conte

Carlinha disse...

Lucinha, a emoção de subir aos céus dançando um tango com todos aqueles cortes lindos que a dança proporciona aos amantes deste embalo, que eu mesmo gostaria de saber fazer quando ouço Astor Piazolla, não ficará pra trás da emoção na chegada ao Brasil no momento que tocava "Mi Buenos Aires Querida", enfim nada é por acaso nesta vidinha medíocre e gostosa. Realmente o texto nos leva um pouco ao convívio com teu pai, mesmo não tendo convivido, como é bom escrever com o coração, como é bom poder escrever a vida e as pessoas como elas são. Ficamos todos com Deus aqui embaixo também!
Grande beijo - Te adoro! Carlinha.

Elison Couto disse...

Lucinha - minha adorável Frosina!
Tenho a honra e o prazer de estar contigo no lugar que mais amamos: sobre o palco. E aprendo contigo a cada ensaio, cada espetáculo. Tens minha admiração e o meu amor.
...E desculpa, ando meio chorão ultimamente.

Elison Couto disse...

Lucinha! minha adorável Frosina

Tenho o prazer de estar contigo no lugar que mais gostamos de estar: no palco. E todos os dias aprendo contigo. A intensidade dos últimos acontecimentos elevaram minha admiração por ti, pelo teu talento e pela tua coragem diante da vida.

obrigado por tudo

DavilaDoteatro disse...

Lucinha,

não contive as lágrimas..
me emocionei demais pq sei como é amar muito o pai da gente do jeito que ele é.

Inês Hübner disse...

Pelo pouco e recente tempo que ultimamente o espetáculo nos fez aproximar admiro teu trabalho, a força e o amor que o empenha, muito provável, herança de traços que descreves do teu pai...
Siga forte no teu caminho... Vigorosa atriz e guerreira pessoa!
Inês Hübner

Mariquinha das Couves disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Zelia Mariah disse...

Querida Lucinha
Como nunca liguei teu sobrenome com os dos meus queridos ex-professores da FAMECOS? Pois é... fui aluna deles lá pelos anos 70 e lembro que a disciplina da tua mãe não era nada fácil. Mas o Bendati nos fazia rir, com aquele sotaque e jeito de ser, que agora ficará guardado num cantinho do meu coração.
Um grande beijo
Zelia Mariah

Anônimo disse...

Uma linda homenagem! Amei! É maravilhoso continuar a caminhada lembrando das alegrias, dos sorrisos, das vivências... Este amor é para sempre!
Luciana Milani

Helena Mello disse...

Teu pai me deu meu único 10 em quatro anos de Famecos. No ano em que me formei, diga-se de passagem. Era um ótimo professor. Paciente. Comigo então...Porque não pensa que era fácil para mim entender de diagramação. Nada. E veja só: teu pai nasceu no dia em que meu irmão morreu com 49 anos em 2005, vítima de um ataque cardíaco fulminante, o que, certamente, para mim foi mais trágico que a queda das Torres gêmeas, mesmo que pareça muito egoísmo dizer isso. Ah, teu pai tinha mesmo um vozeirão, mas, nunca o ouvi cantar. Fica bem. Beijo

Fraga disse...

Lúcia, de certos pais os filhos nem chegam a ficar órfãos. Como também as amizades não se extinguem só porque um dos amigos partiu de vez. Estamos todos bendatizados para o resto de nossas vidas. Emocionante o teu depoimento, fez vibrar as minhas boas lembranças dele. Abração afetuoso à família toda. (Outros tributos estão sendo publicados no Tinta China por estes dias.)

Sabrina disse...

Lucinha, querida,
Que maravilha é poder escrever assim de um pai. Parabéns por tê-lo vivido e pelo que,também através dele, tens sido.
Nosso tanto de carinho e admiração,
Bina e Cícero

Melissa disse...

Lindo, lindo, lindo. Vou guardar esse texto na memória pra tentar sugar um pouquinho da força que tu transmite com ele. Uma linda história de vida.


E fui mais macho: QUASE chorei :)


beijão, lôra

Lúcia disse...

Amiga, linda, talentosa...que lindo...um abraço bem apertado!

Aline Jones disse...

Lucinha.
Perfeito.
Existe um gigante que tem dentro de ti. Muito emocionante.
Fiquei como um chocolate meio amargo...
Bjones
Aline Jones